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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

                                            Entre o céu e o inferno.

Enquanto alguns fazem guerras, se odeiam e se destroem, eu vejo e falo com Anjos.

              Cap. 01.

Eu estava sentada na escadaria da hig school colegge quando a Donna chegou comendo um risólis de frango e com uma latinha de coca.
- Hey Hindra, o que você acha de passarmos no harbor’s hoje a noite? A final, é sexta feira.
- Não posso, tenho que ir pra casa fazer a janta, minha mãe vai chegar mais tarde hoje.
Seu sorriso se tornou um biquinho.
Então o sinal tocou.
- Prova – ela suspirou.
- Sim, prova.
Quando eu levantei senti uma tontura e uma forte dor de cabeça, então eu senti vozes desaparecendo e eu caindo.
Acordei no mesmo lugar – de pé onde eu estivera há cinco segundos – mas eu sabia o que estava acontecendo e que realmente eu não estava ali, que aquilo era um sonho – como muitos outros que já tivera desde que tinha sete anos.
Eu estava ali no pátio do colégio, mas eu nunca havia visto aquelas pessoas antes, será que eu havia voltado no tempo dessa vez? Mas se houvesse, não era um tempo tão distante, pois as roupas eram normais como agora, eu vi cinco pessoas caminhando com uma luz em seu ombro direito, e aquelas luzes aos poucos tomavam formas humanas.
Arfei.
Formas humanas com asas, luz que traria espanto e calmaria para qualquer um que olhasse nos olhos deles.
Foi então que eu senti algo atrás de mim, atrás de meu ombro direito, quando virei- me para olhar eu acordei em uma lufada.
- Querida, você está bem? – perguntou senhora Betty – enfermeira da escola.
Minha cabeça rodava e eu não conseguia manter os olhos abertos por muito tempo, mas eu conhecia essa sensação, era sinal de que eu iria melhorar.
- Sim, só estou um pouco tonta – eu disse entorpecida.
- Não se preocupe querida, volte a dormir, o remédio te deixará sonolenta, então é melhor que durma um pouco mais.
Então eu virei para o lado e não vi mais nada.
Acordei na minha cama e eu sabia o que isso significava.
Levantei um pouco grogue, caminhei até as escadas me segurando para não cair, cheguei a sala e o avistei.
- Pai – exclamei com alegria e então corri para abraça –lo.
- Olá querida, estava com saudades.
- Eu também pai.
Há um mês que eu não o via, meus pais haviam se separado há cinco anos, não foi fácil para mim, meu pai havia mudado para um estado vizinho, então eu não o via frequentemente.
- Como você se sente querida? – me perguntou ele com seus grandes olhos verdes preocupados.
- Um pouco grogue, mas nada que não vá passar, o senhor sabe como são essas coisas. – dei de ombros.
Ele franziu um pouco a testa.
- Sim, mas nunca poderei me acostumar com isso.
- O senhor veio aqui só pra me ver? – perguntei confusa, pois quando eu tinha essas crises ele não vinha.
- Bem Hindra, creio que preciso conversar com Lore, pois sua crise de hoje não foi como as outras.
- Como assim não foi como as outras?
- Bem, a enfermeira disse que logo depois de sua crise, você acordou na enfermaria, dormiu e acordou de novo, mas desta vez, você começou falar palavras sem sentido e em línguas diferentes, nenhuma que ela reconhecesse, então abriu seus olhos em um rompante, mas eles estavam completamente brancos e então voltou a dormir, ela me ligou e eu fui te buscar filha, então acredito que teremos que te levar ao doutor Henry de novo.
Doutor Henry era meu médico desde quando eu comecei a ter essas crises, na verdade ele nunca soube explicar direito o que eu tinha, me fez fazer inúmeros exames e nunca achou nada, então chegou a conclusão de que eu sofria de epilepsia, eu estudei muito sobre o assunto e sabia que não havia cura, mas que eu podia levar uma vida quase normal, desde quando tive minha primeira crise, me entupiam de remédios, mas há um ano eu decidi parar com tudo isso, e não havia tido outra crise até hoje de manhã.
- Então o senhor está esperando a mamãe chegar para ela dar o ok para mais uma bateria de exames desnecessários e uma pilha de medicamentos controlados – eu disse mais isso para mim mesma.
- Entenda Samanta, nós só queremos o seu bem, não podemos te ver tendo esses ataques e deixar tudo como está, só queremos uma melhor qualidade de vida para você.
- Eu sei pai, é só que eu não queria me entupir de remédios novamente, eles me deixam com sono, e eu pareço uma viciada, minha qualidade de vida melhorou muito depois que eu parei de tomar essas coisas prescritas – choraminguei.
- Conversaremos quando sua mãe chegar está bem?
- Tudo bem pai.
Baxei os olhos e vi que na mesinha de centro da sala de TV estavam minhas antigas receitas de remédios que o dr. Henry havia me prescrito.
Suspirei e peguei a caixinha com meu nome, onde minha mãe guardava minhas receitas.
Peguei uma receita onde dizia Samanta Mahyndra e mais de cinco remédios prescritos em uma só receita logo abaixo.
- Steven? – perguntou minha mãe surpresa olhando de meu pai para mim e vendo as receitas todas – Sam, você está bem? – perguntou ela com uma preocupação desnecessária.
- Estou bem mamãe – suspirei.
Papai me olhou incrédulo e pigarreou.
- Conte você, pelo visto, o senhor sabe melhor do que eu o que aconteceu – disse carrancuda.
Então deixei a sala, porque não queria um olhar de pena e preocupação de minha mãe, já estava farta de tudo isso, comecei subir as escadas, foi então que eu cai e minha cabeça doeu como nunca havia acontecido antes, tudo rodou e desapareceu.
Era uma tarde chuvosa, eu estava correndo na chuva com minha bolsa na cabeça, para chegar logo em casa, estava chovendo baldes, uma típica tempestade de verão, mas então eu vi um homem parado no meio da estrada, a bloqueava, eu senti gelo em minha coluna, e um tremor passou por meus ombros até minhas pernas, ele começou a se aproximar, olhos negros como breu, usava uma capa preta e botas de soldado, em seu pescoço havia uma tatuagem, mas era só um pedaço, provavelmente ela iria até o meio de suas costas, ele sorriu e avançou mais, eu não sabia o que fazer, estava imóvel, repassando as possibilidades de eu sair dessa, pensando nos golpes que eu havia assistido em filmes, mas no fundo eu sabia que não tinha chances. Por mais que eu tentasse, minhas pernas não me obedeciam, então um raio atingiu o chão a poucos metros de mim, eu vi um clarão que quase me cegou, e onde o raio havia atingido, estava um jovem parado olhando fixo para aquele homem que havia parado de avançar assim que o vira.
O jovem flexionou seus ombros para trás como se estivesse os alongando depois de muito tempo, trincou a mandíbula, baixou a cabeça com um olhar ameaçador para o homem e avançou em sua direção, falava uma língua estranha, mas que por incrível que pareça eu entendia cada palavra que ele dizia àquele homem “ jamais deixarei qualquer um de vocês tocar nela, vocês são porcos, e estão prestes a serem abatidos, assim como você será agora, em nome da Ordem Maior a qual eu sirvo e você irá cair mais uma vez”.
Então o jovem abaixou – se, pôs seu braço direito para trás e pegou um objeto pontiagudo – que apareceu do nada em sua mão – e cravou aquilo onde começava a tatuagem do homem.
O homem se contorceu e soltou um grunhido estridente e explodiu em cinzas, cinzas que a chuva tratou de levar embora.
O jovem se virou para mim, então eu pude o ver melhor.
Ele era alto, magro, com músculos em seu braço que pareciam ser esculpidos, seu peito também era forte, ele estava todo de preto, camiseta preta, calça jeans preta e tênis preto, seu rosto era comprido, seus olhos eram grandes e negros, pareciam duas ameixas pretas, sua boca era volumosa e seu nariz correspondia muito bem a suas feições, o cabelo era negro como óleo, curto, ele era bronzeado, como se gostasse de praia ou trabalhasse em uma fazenda.
Ele avançou em minha direção, mas eu não senti medo.
- Não se preocupe, eles não irão te machucar, nenhum deles, eu os caçarei e aniquilarei todos, um a um, você está segura, agora precisa voltar, pois por mais segura que esteja, aqui não é lugar para você.
Eu não entendi nada do que ele disse, então ele avançou até ficar a centímetros de mim – ele era uma cabeça mais alto que eu.
Então curvou-se um pouco e beijou o alto de mim cabeça.
Com seu toque eu fui arremessada de volta e abri os olhos em um rompante.
- Ela está acordando disse dr. Henry com sua voz grave.
- Onde eu estou? – perguntei com a voz falhando.
- Você está em minha clinica querida.
Eu me encolhi.
Eu estava tonta, entorpecida, mal conseguia pensar.
- Descanse agora, você ficou dias desacordada.
Meus olhos pareciam que iam saltar das órbitas.
- Dias? – perguntei incrédula.
- Sim, dois dias inteiros, você esteve em uma espécie de coma, eu preciso avisar seus pais de que você está bem, descanse querida, logo voltarei.
Então ele se foi.
Dois dias? Como eu havia ficado dois dias em coma? A única coisa de que me lembro foi do homem mau e do jovem que aparentemente havia me salvado, será que algo mais aconteceu que eu não lembro?
Esfreguei meus olhos e gemi quando percebi que estava com uma agulha em minha veia e um caninho, provavelmente era soro ou remédio que me tiram de mim.
Minha cabeça estava parando de rodar aos poucos, então eu comecei a chorar. Eu não queria tudo aquilo de volta, não agora que estava tudo correndo tão bem, eu não queria voltar a ter esses ataques, essas crises que me levavam ao hospital e me deixavam a beira da loucura, eu esperava por um milagre, apenas um milagre, pois eu sabia que só isso poderia me salvar. Ou então eu queria morrer, pois não agüentaria passar por tudo novamente.
- Nem pense nisso garota! – disse uma voz grossa.
Olhei para o lado espantada e arfei quando o vi o jovem do meu sonho parado ali ao meu lado, sua expressão era severa.
- Q- quem é você? - perguntei gaguejando.
- Eu sou Truun.
- Venham, ela está acordada – ouvi a voz de dr. Henry e olhei rapidamente para o jovem parado ao meu lado, ele sumira, vi apenas um raio no horizonte ao longe de minha janela.
Fechei os olhos e fingi que estava dormindo.
- Ela adormeceu novamente – disse dr. Henry.
- Ela deve estar cansada, pobre da minha Sam, ela estava tão feliz – disse minha mãe com a voz entrecortada.
Eu não havia herdado nada de minha mãe, eu era idêntica a meu pai, minha mãe era alta, bem volumosa nas cochas e nos peitos, cintura fina, era loira dos olhos castanhos acobreados – na verdade eu herdara seus olhos. Meu pai era magro e alto, olhos verdes, eu sempre brincava com ele dizendo que ele parecia o Steve Jobs.
Já eu, tinha os olhos castanhos cor de mel, cabelo até a cintura castanho claro – com as pontas descoloridas quimicamente – rosto médio, nariz correspondente, lábios cheios em forma de coração, cintura fina, quadris largos – do tipo padrão – puxei a meu pai no quesito de ser magra, sorte minha – não que eu não achasse minha mãe bela, é só que eu odiava o fato de que eu poderia ter tido coxas avantajas e seios enormes.
Eu não gostava de ver meus pais assim eles estavam muito preocupados comigo, isso me entristecia, eles deveriam ter os problemas deles e não os meus, às vezes eu me sentia como um peso para eles.
- Vamos deixar a Samanta descansar, quando ela acordar novamente eu mandarei a enfermeira chamá-los. – disse dr. Henry interrompendo meus pensamentos melancólicos.
Quando eles saíram, eu abri meus olhos e olhei pela janela a chuva que começava, eu amava a chuva mais do que o sol, ela era minha companheira quando eu sentava na janela do meu quarto sonhando um futuro que eu sabia que não viria.
Eu deveria mesmo morrer de uma vez, assim deixaria todos em paz – no momento em que eu formulei esse pensamento um raio cortou o céu e logo em seguida um trovão quase me deixou surda.
Olhei para a mesinha que havia do lado da minha cama, abri a gaveta pra ver se tinha alguma coisa que me interessasse e vi meu celular, quase tive uma sincope de felicidade.
O liguei e haviam várias mensagens – a maioria eram da Donna – me desejando melhoras e perguntando como eu estava. Era bom saber que eu tinha amigos que se preocupavam comigo.
Então comecei a respondê-las, conforme eu respondia cada mensagem, chegavam mais com mais perguntas ‘ quando eu sairia do hospital’ ‘ se eu voltaria para o colégio’ quando eu voltaria para o colégio’ ‘ se eu podia receber visitas’  deixei as da Donna por ultimo porque eu sabia que ela não iria esperar e já iria me ligar.
- Hey garota! Como você está? Hoje eu irei te visitar, e se não me deixarem entrar eu falarei umas poucas e boas para aquelas secretarias, ai me conta, quando você voltará para o colégio?
- Calma. Bom, eu não sei, pois só acordei hoje, e não conversei sobre isso com o médico, nem com meus pais eu ainda não conversei. Provavelmente eu já posso receber visitas. Eu não tenho ânimo para voltar pra escola.
- O que? Como não tem ânimo? Você tem que voltar, nossos amigos estão todos muito preocupados com você, não nos deixe assim! – ela estava histérica.
- Será que você pode por favor se acalmar e dizer a todos que eu estou bem? Agora eu preciso desligar.
- Desligar? E vai fazer o que nesse quarto sozinha o dia todo? – perguntou ela com sarcasmo.
- Pensar. Beijo.
E desliguei.
Remédios idiotas, me fazem dormir quando eu não quero e quando eu preciso e quero não me adiantam de nada.
Virei para o lado e fiquei olhando a chuva cair, então adormeci e sonhei com Truun.
Ele sorria ao me ver brincar na grama da fazenda do meu pai - quando meus pais ainda eram casados - eu tinha oito anos, ele estava sentado na sombra de um grande carvalho que fica perto de um rio.
Depois ele me fitava andando de cavalo, aos dez anos, dessa vez em cima de uma árvore.
Aos doze quando eu virei mocinha – sim isso foi constrangedor, mas ele parecia se divertir com minha expressão de confusão e vergonha ao chamar minha mãe achando que estava tendo uma hemorragia.
Aos quatorze quando dei meu primeiro beijo – ele estava pensativo e parecia entediado.
Aos dezesseis quando eu ganhei meu carro do papai.
Todos os dias quando eu voltava do colégio.
Quando completei dezessete e aceitei o pedido de namoro do Loren – há quatro meses atrás.
Dessa vez ele estava sério.
“ nunquam deseret vos erro vobiscum in a eternum” – ele sussurrou em meu ouvido e então eu acordei.
- Quem é você? – perguntei confusa.
Ele deu de ombros.
- Sou seu guardião.
- Meu guardião?
- Sim, eu venho te protegendo desde quando você começou a ter suas visões.
- Visões?
- Sim, o que você tem são visões.
- Não, eu acho que você se enganou, eu tenho epilepsia.
- Não, você não tem essa doença – ele fechou os olhos.
Então eu fui tirada da realidade.
Eu estava na varanda da casa da fazenda, Truun estava do meu lado olhando ao longe, eu sabia que nada era real, pois tudo estava em um tom de sépia.
- Na verdade tudo é real sim, eu te trouxe pra cá para podermos conversar – disse ele.
- Você lê meus pensamentos? – perguntei cética.
- Não, eu não posso, na verdade eu posso, mas há uma regra que me impede, eu sei que você pensou que não era real, porque tem certas coisas que passam para nós quando nossos protegidos estão pensando em algo que vá contra a natureza deles, ou não acreditam em nós, assim como quando você pensou em terminar com sua vida – ele estremeceu.
- Nós?
- Nós guardiões, precisamos de muitos ‘dons’ para proteger nossos escolhidos e os manter a salvo.
- Escolhidos?
- Sim, cada um de nós é designado a proteger um ser humano especial, há uma seleção que nos ajuda a ser designados para as pessoas 100% compatíveis com nós.
- E por quê compatíveis?
Ele ficou em silêncio por um minuto inteiro, parecia decidir entre falar tudo ou omitir algo.
- Alguns anjos caídos mudaram algumas coisas a fim de nos por em tentação e nos fazer cair como eles, algo irreversível.
- Não entendi.
- Acredite, é melhor que você não entenda, é melhor para nós dois.
-  Você é louco, não, eu que estou ficando louca, essas coisas não existem, ainda mais se um guardião chega em meus sonhos e me joga tudo isso, como você fez.
- Você esperava o que? – ele perguntou sarcástico – que eu entrasse em seu colégio, virasse seu amigo e depois coisas estranhas começassem a acontecer e então você chegaria para mim querendo saber quem eu de fato era e eu contasse que sou seu anjo da guarda? Se você pensa isso é porque está lendo livros demais.
Eu abri a boca para falar, mas nada me veio a cabeça então a fechei absorvendo melhor as palavras dele. Resolvi deixar passar, pois eu queria saber mais, a final entraria no jogo da minha mente que estava completamente descontrolada, criando coisas imaginarias.
Ele me fitou por um momento, como se pudesse ler meus pensamentos e suspirou.
- Você precisa voltar para o colégio, precisar levar uma vida completamente normal.
- O que? Mas por que eu preciso levar uma vida normal?
- Para que ninguém perceba o que há com você.
- O que há comigo? – eu realmente não estava entendendo mais nada do que ele falava.
- Há coisas que você não pode saber ainda, mas logo você vai começar a entender, será aos poucos, eu realmente não posso te contar, se eu fizesse as regras, você já saberia de tudo, mas não sou eu quem as faço.
Eu estava curiosa, mas deixei quieto.
- Então você quer passar o final de semana na fazenda do seu pai?
- Sim, é o que eu pretendo.
- Agora você precisa acordar e conversar com todos, para que eles vejam que você está bem.
                                                                          ...

Alguns dias se passaram e o dr. Henry me deu alta e por um milagre meus pais me deixaram ir para a fazenda sem eles – claro que isso só podia ser obra de Truun, mas eu não discutiria sobre isso.
Com esse tempo que se passou, eu realmente pude ver que não era um truque da minha mente, que tudo era real, todo esse papo de guardião, e conheci o Truun melhor, ele era incrível.
- Muito bem filha, já está pronta? Está na hora de irmos. – disse meu pai colocando a cabeça para dentro do quarto.
Meus pais me deixaram na casa da fazenda e deram milhares de recomendações para dona Iris e seu João – os empregados que cuidavam da fazenda.
Claro que meu pai jamais me deixaria completamente sozinha e sem revisão contínua, às vezes eu gostaria de falar para ele ‘ pai eu tenho um anjo da guarda, que está disposto a morrer por mim’ mas provavelmente – na melhor das hipóteses - ele questionaria minha sanidade mental e me trancaria em um manicômio.
Entrei na casa da fazenda e um turbilhão de recordações felizes passaram por mim.
Respirei fundo o ar do campo, foi então que senti uma mão quente em meu ombro direito e dei um pulo.
- Olá – disse Truun.
- Você quase me matou de susto – exclamei.
- Não exagere, a final, seria um pecado mortal para um anjo matar de susto sua protegida. – os cantos de sua boca se ergueram em um sorriso simples e angelical.
Era incrível como nos conhecíamos a uma semana e já estávamos tão próximos, na verdade eu o conhecia a uma semana, pois ele estivera comigo desde meus sete anos de idade – talvez fosse por isso que era como se eu o conhecesse minha vida toda e eu confiava nele, a final, quem não confiaria em seu anjo da guarda?
- Eu vou te ensinar como evitar essas crises quando uma  visão vêm, não é fácil, mas é muito conveniente para que não chame atenção de seres que procuram por pessoas como você.
- Pessoas como eu?
- Sim, pessoas como você, lembre-se: apenas saber o suficiente até a hora certa.
Assenti com a cabeça.
- Bom, - ele continuou – há outras pessoas como você, com dons variados, e nós achamos melhor juntar todos vocês, assim se algum imprevisto acontecer todos vocês estarão juntos e nossas estatísticas de defesa serão maiores.
- Quantas pessoas são?
- Nesse estado são mais cinco, na verdade eram sete, mas o protetor dele foi corrompido e perdeu suas asas, levando com ele o jovem, foram os dois para o lado escuro. Os outros estão vindo para a Cityc Ville esse final de semana, segunda feira provavelmente eles já estarão aqui e entrarão no seu colégio.
Eu congelei.
- O que foi Sam, você está bem? – ele me pergunto alarmado.
Eu engoli a seco.
- Eu vi cinco jovens no pátio do meu colégio cada um com uma luz em seu ombro direito, uma luz que tomava forma de gente, gente com asas.
Um sorriso cresceu em seus lábios.
- O que mais que você viu?
Eu vi um homem todo de preto, ele estava no meio da estrada quando eu ia para casa, estava chovendo, então caiu um raio a poucos metros de mim e eu vi você, você me salvou dele, logo depois me deu um beijo no alto da cabeça e disse que estava na hora de eu voltar, então eu acordei.
Ele assentiu.
- Esse homem, tinha algum detalhe físico em especial?
- Ele tinha uma parte de uma tatuagem em seu pescoço, para fora de sua capa.
Ele ficou sério e pensativos, seus olhos lampejaram algo.
- O que foi? – perguntei.
Ele sorriu para mim, mas o sorriso não chegou até seus olhos, ele parecia preocupado.
- Não foi nada, apenas lembranças ruins, mas venha, vamos fazer algo para você comer – então me puxou pelo braço.
Eu comi e então o tempo passou rápido, nós conversamos sobre varias coisas.
Então a noite caiu com seu manto negro, havia começado uma leve chuva e a temperatura caiu um pouco, então Truun acendeu fogo na lareira da sala.
- Muito bem – disse ele – tudo o que você precisa fazer é toda noite antes de dormir focar seu pensamento em algo que aconteceu e reverter isso, apenas na sua mente.
- Como assim?
- A escadaria do colégio, você ficou tonta e caiu, volte a sua ultima lembrança daquela manhã e quando estiver caindo force-se a levantar, vamos lá tente, é simples mas não é fácil, com o tempo você vai conseguir.
Então eu sentei no tapete da sala fechei os olhos e voltei àquela manhã, quando eu estava caindo eu fui direto a minha visão.
- Eu não consigo – choraminguei.
Ele riu.
- E você espera conseguir de primeira? Vamos lá, faça de novo, é só exercitando–se que você irá conseguir.
Naquela noite eu tentei várias vezes, até que por fim tive uma pequena mudança, eu consegui sentar-me na escadaria novamente, antes de desmaiar.
- Muito bem, já chega, continuamos isso amanhã, você deve estar exausta, que tal relachar um pouco? – disse ele.
- Como?
- Um filme? – sugeriu ele.
- Ok.
Então ele ligou a TV estava passando um filme sobre um homem que tinha que salvar sua amada de terríveis zumbis.
Ele se divertia com aquilo.
Eu ri de sua risada, parecia tosco, mas eu ri.
Ele me fitou.
- Do que você está rido?
- Da sua risada.
Ele pareceu confuso.
- Da minha risada?
- Sim, é só que – eu expliquei – eu nunca havia o visto rir assim, tudo bem que nos conhecemos há apenas uma semana, mas você sempre me pareceu ameaçador e agora eu estou sentada na minha sala com o meu anjo da guarda que está rindo de um filme de zumbis, é meio novo pra mim tudo isso – dei de ombros.
Ele sorriu.
- Realmente deve ser muito confuso, mas acredite é por um bem maior – disse ele.
- Você sabe como me deixar curiosa, vamos mudar de assunto.
- Tudo bem.
- Então, são apenas os jovens que irão se matricular no meu colégio, ou os seus guardiões também?
- Todos nós – ele respondeu.
- Então as pessoas normais também podem ver vocês?
- Nós iremos tomar forma humana, materializada, ou seja, teremos um corpo humano, assim como todo e qualquer humano.
- Legal, mas você terá uma casa? Você tem uma casa?
Ele sorriu.
- Sim, eu tenho uma casa, carro e dinheiro, digamos que a Ordem nos dá o que precisamos, nós temos uma espécie de consulado na Terra.
Deixei essa passar, mesmo com minha curiosidade roendo meus ossos, eu estava animada com a idéia de meu anjo da guarda estudar na minha escola.
- E a gente vai se conhecer no primeiro dia ou não iremos nos falar? – eu estava quicando com a idéia de pertencer a uma organização celestial secreta, teria que agir como uma espiã, ou algo do tipo, conspirando para que ninguém descobrisse a verdade – por dentro eu estava dando pulinhos.
Ele cerrou os olhos vendo minha animação.
- Na verdade, eu serei seu colega de turma e nós dois andaremos juntos para todo o lado – ele deu de ombros.
Que emocionante – pensei com a animação quase desaparecendo.
Ele reprimia o riso.
- É hora da senhorita ir para a cama.
Foi minha vez de cerrar os olhos.
- Não me trate como se eu fosse uma criança.
- Tudo bem, me desculpe – disse ele erguendo as palmas das mãos.
Então levantei-me e fui em direção ao meu quarto com ele atrás de mim, quando chegamos ao quarto do lado do meu, eu gesticulei para ele mostrando o quarto dele.
- Qualquer coisa eu do um grito – eu disse.
- Não precisa, eu sei tudo o que acontece com você, nós estamos ligados por algo invisível chamado cordão angelical. O que significa que eu sinto tudo o que você sente, então por favor, não seja tão intensa com suas emoções – pediu ele se encolhendo.
- Tudo bem – eu disse franzindo o cenho – Boa noite Anjo.
Sua boca se abriu um pouco e algo que eu não reconheci passou por seus olhos – que se derreteram em ternura.
- Dulcia somnia – disse ele – ele tinha mania de falar coisas que eu não entendia.
Ele sorriu e entrou em seu quarto.
Entrei no meu quarto tirei minha roupa, coloquei uma blusa de dormir e deslizei para debaixo das cobertas.
Acordei de madrugada com um trovão, estava tendo uma tempestade e  vento estava muito forte, eu congelei, os galhos das árvores raspavam na casa – o que me deixava apavorada – e quando relampeava a sombra dos galhos eram arremessadas para dentro do meu quarto e se pareciam com monstros – parecidos com o do filme que eu havia assistido. Sentei em mim cama e me encolhi com o cobertor até o pescoço, quando ouvi passos e a maçaneta da porta girando, meus olhos pareciam que iam saltar das órbitas.
- O que ouve? – perguntou Truun entrando porta a dentro apenas com uma calça escura com seu peito – muito bem definido – nu.
O alivio foi imediato.
- Só estou um pouco assustada.
- O que? Com os trovoes? E com os relâmpagos?
- Sim, e com as sombras dos galhos que são arremessadas para dentro – choraminguei.
Ele sorriu e tirou as cobertas de cima de mim me puxando para seu peito em um abraço.
Me senti mais segura do que em toda minha vida já me sentira, era uma sensação de que se o mundo caísse em pedaços agora, eles não poderiam me atingir.
Um frio diferente cortou meu estômago e fez meu corpo tremer, então ele me abraçou mais apertado ainda, mas se ele sentia tudo o que eu sinto, isso não deveria ter passado desapercebido, mas então por que ele me abraçara mais forte? Anjos podiam sentir desejo? Mesmo que fosse sem querer?
Foi só então que eu me dei conta de que eu estava só de calcinha e ele havia tirado o cobertor do caminho para me abraçar. Eu corei, mas não queria sair de seu abraço protetor.
De repente alguns pensamentos ilícitos passaram por minha mente.
O que ele faria se eu erguesse minha cabeça e o beijasse? E se eu envolvesse meu corpo contra o dele? Afastei minha cabeça um pouco para dar uma olhadela em seu rosto, ele olhava além de minha janela, para os relâmpagos, estava pensativo e com as pontas dos lábios curvadas para cima, mas seus olhos eram de tristeza.
Para de pensar nisso sua maluca, ele é se anjo da guarda e não um jovem comum, pare com isso! Gritei para mim mesma em meus pensamentos.
Então me afastei dele.
Ele me fitou confuso.
- O que foi?
- Nada – respondi
Não era possível que ele não tivesse sentido meu coração como hélices de helicóptero e minha respiração afetada por isso, fora as emoções que ele podia sentir.
- Ah – foi tudo o que ele disse, seu rosto tomou um total conhecimento.
- Você não dorme? – perguntei para mudar de assunto e por quê eu realmente queria saber.
Seu rosto relaxou e ele sorriu.
- Sim, mas é muito diferente da maneira como você dorme, eu só durmo quando você adormece e eu entro em um estado de transe, eu posso ver tudo o que você sonha, os seus sonhos e não suas visões, e quando você está em perigo, com medo ou acorda repentinamente eu acordo um pouco antes para te proteger. E – hesitou ele – você pode ver quando eu tenho uma espécie de sonho também, mas então nós compartilhamos, era como se você tivesse sonhado, os sonhos dos anjos são mais pensamentos que nós empurramos para o nosso inconsciente, que é completamente consciente para nós, mas é uma parte de nós onde guardamos segredos que os nossos superiores não podem ver.
Eu sorri maliciosamente.
- O que foi? – perguntou ele cerrando os olhos.
- Então quer dizer que os seus superiores não podem ver o que você tem a esconder, mas eu, uma simples humana, posso saber de todos os seus segredos mais obscuros? – minha voz saiu em um tom de conspiração.
Ele deu de ombros.
- Sim, mas agora é melhor você voltar a dormir – ele beijou o alto de minha cabeça – eu ficarei aqui até você adormecer.
Eu e ele estávamos em meu quarto abraçados quando todas as minhas memórias passaram pela mente dele, mas de maneiras diferentes, como se ele as tivesse pensando, e de uma maneira mais quente.
Então ele me puxou para se colo, eu coloquei minhas pernas uma de cada lado de sua cintura, então ele me beijou e puxou minhas coxas para mais perto – não deixando mais nenhum espaço entre nós – ele se moveu de forma que me deitou em minha cama e se encaixou perfeitamente entre minhas coxas e eu entrelacei minhas pernas ao redor de sua cintura.
Sua boca percorreu minha mandíbula e foi para meu pescoço, seus lábios cheios mandavam ondas de eletricidade por minha pele.
Então ele arfou de dor e deixou sair um ‘áh’ de seu peito e se afastou.
- Me desculpe, eu não sei onde estava com a cabeça, me perdoe, por favor – disse ele com a voz entrecortada com a respiração acelerada.
- Não me peça perdão por algo que eu também quero fazer.
- Isso não pode acontecer, é um sacrilégio.
- Seria sacrilégio se você fosse um padre!
- Eu sou anjo Samanta!
- Sim, você é o meu anjo, e nada impede que você possa me amar por uma noite.
- Eu tenho regras a seguir.
- Tudo bem, eu estou sendo egoísta querendo algo que não pode ser meu.
- Não fique triste, eu também a quero – ele disse isso em um sussurro.

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